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Uma leitura atemporal, conectada ao comportamento. Cinco temas que vão do sinal sociocultural ao croqui final — com paletas, matérias-primas e referências completas.
Transformamos a pesquisa de tendências em um percurso criativo e aplicável.
Cinco grandes temas comportamentais conectam cultura, consumo e direcionamentos criativos para o mercado de moda.
72 páginas com croquis, paletas, matérias-primas, referências culturais e materiais técnicos — desdobrados página a página, no mesmo formato editorial do caderno físico.
Além de todo o material de tendências, cada edição entrega as ferramentas para tirar a coleção do papel — e serviços que ampliam a pesquisa.
Ficha técnica, modelagens, sequências operacionais e indicação de maquinário, reunidos no nosso Linktree.
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Ver calendárioOs 100 anos da indústria de lingerie no Brasil — de Nova Friburgo à Capital Nacional da Moda Íntima.
Ler a históriaA cofundadora da Fruit de la Passion sobre trajetória, criação e o futuro da lingerie de alto padrão.
Ler entrevistaVeja o que ela achou do Caderno de Inspiração.
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Acessar site ↗Especialista em rendas para lingerie e moda, com desenvolvimento exclusivo. Fortaleza/CE, desde 1998.
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Capítulo de estreia: Nova Friburgo, do filó de 1925 à Capital Nacional da Moda Íntima. Por Ticiana Werneck.
Especial · 100 Anos
O ano de 2025 marca a celebração dos 100 anos da indústria de lingerie no Brasil, um setor de profunda relevância econômica e cultural. Mais do que movimentar mercados e sustentar cidades, a lingerie expressa a identidade produtiva do País e reflete transformações sociais, industriais e estéticas ao longo de um século.
Este texto inaugura uma série de capítulos em formato de “cápsulas”, que serão publicados ao longo dos próximos dois anos no Caderno de Inspiração. Cada edição explora recortes, lugares e personagens dessa trajetória centenária, com o objetivo de reunir, ao final do projeto, um livro que documente as origens, os impactos e a evolução da lingerie no Brasil.
O capítulo de estreia tem como ponto de partida Nova Friburgo (RJ), polo mais tradicional do setor, onde a Fábrica Filó foi fundada em 1925. Apresentamos um panorama da formação desse ecossistema, suas raízes europeias, transformações industriais e desafios, além de uma linha do tempo da moda íntima. A edição se encerra com uma entrevista exclusiva com Cecília Bourdon, fundadora da Fruit de la Passion, abrindo caminho para as histórias que ainda serão reveladas.
Por Maurício Milhomens
Reportagem · Por Ticiana Werneck
Incrustada na majestosa Serra do Mar, a 136 quilômetros da efervescência da capital fluminense, está a cidade de Nova Friburgo, berço da lingerie no Brasil. Não é apenas um refúgio de clima ameno e paisagens montanhosas; é o solo onde a história da moda íntima brasileira foi escrita, um epicentro de criação que a consagrou como a Capital Nacional da Moda Íntima.
A saga começa em 1910, com a chegada de dois empresários alemães, Peter Julius Arp e Maximilian Falck. Eles não buscavam apenas um local para instalar suas fábricas de rendas e passamanarias; buscavam um lugar onde a ambição industrial pudesse florescer. A escolha de Nova Friburgo resultou de uma combinação estratégica de fatores: ausência de impostos estaduais onerosos, a existência de uma colônia alemã e suíça que oferecia familiaridade cultural, e as condições logísticas — a cidade era atendida por uma ferrovia que a aproximava do maior mercado consumidor do país, o Rio de Janeiro, então Capital Federal.
A fundação de Nova Friburgo remonta a 1818, quando o Rei Dom João VI propôs uma colonização planejada para “promover e dilatar a civilização do Reino do Brasil”. Em 1820, a região foi colonizada por 265 famílias suíças, que a batizaram de Nova Friburgo em homenagem à cidade de onde muitos vieram, Freibourg. O local foi escolhido em função do clima e das características naturais semelhantes às de seu país de origem. Em seguida, em 1824, chegaram famílias alemãs.
Um marco para o desenvolvimento da cidade foi a chegada da Estrada de Ferro Leopoldina, em 1872. Inicialmente visando escoar a produção de café, a ferrovia consolidou Nova Friburgo como um centro comercial e cultural. No início dos anos 1900, a cidade combinava um núcleo urbano à produção rural de hortifrutigranjeiros, flores e café. Não existia energia elétrica e o espaço urbano era modesto, com apenas 24 ruas, quatro praças e duas avenidas. Era comum ver circulando pelas ruas animais como porcos, cavalos e galinhas. Esse era o cenário quando os alemães chegaram com suas ideias de progresso e industrialização. Uma certeza? Nada seria como antes.
A paisagem friburguense, marcada pela exuberante mata atlântica, mudou para sempre com a chegada das primeiras máquinas alemãs, de costura e tecelagem, em 1911. Os trilhos do trem trouxeram para cima da serra também mais de trinta alemães para trabalhar na recém-criada Rendas Arp, do pioneiro Julius Arp. Ali produziam rendas simples e, graças a um pantógrafo alemão, rendas bordadas em filó grosso de sete jardas — um diferencial para a época. No ano seguinte é a vez de outro alemão, Falck, implantar um galpão com quatorze teares na fazenda YPU, nome que batizou sua fábrica de passamanarias. Associado à Arp, Falck expande sua produção de forma ágil: dos doze funcionários iniciais, em 1917 já eram 155, ampliando a linha com sianinha, guipir, bordado inglês, bico de renda e cordão. Mais à frente, com os suspensórios em alta entre os homens, a empresa passou a produzir o acessório, chegando a ser conhecida como “fábrica de suspensórios”.
Ernst Otto Siems, filho do dono de uma fábrica de filó em Plauen, na Alemanha, conheceu Arp durante um cruzeiro marítimo — encontro que o convenceria a instalar uma unidade em Nova Friburgo. Assim, em 1925, era fundada a Fábrica Filó em terras friburguenses. A fabricação de filó e renda constitui um dos ramos mais difíceis e especializados da indústria têxtil, já que a produção desses artigos exige uma exatidão mecânica de máquinas complexas. Por isso, da mesma forma como aconteceu com as demais indústrias, as primeiras máquinas de filó vieram acompanhadas de técnicos vindos da Alemanha para operar o complicado maquinário.
O terreno escolhido era, inicialmente, apenas um brejo pantanoso, cercado por encostas cobertas de eucaliptos, pinheiros e madeiras de lei — vegetação que, mais tarde, abasteceria os caldeirões de tingimento e alvejamento de tecidos. A fábrica começou modestamente, em um galpão de 2.500 m². Duas décadas depois, já ocupava uma área doze vezes maior. Dedicou-se à produção de filó liso, filó de jacquard em ponto de crochê, filó de seda, filó de algodão, renda Valenciana e Nottingham, laize de renda, gobelin, madra, marquisete, colcha de cama, toalha de mesa, tecidos de estofamento e tapeçaria.
Para driblar a falta de mão de obra especializada na pacata vila serrana, capaz de operar o maquinário importado, as fábricas alemãs implantaram a cultura do treinamento em costura — providencial para quando, algumas décadas depois, a Filó foi vendida para a gigante da lingerie Triumph International. Havia grande sinergia entre as fábricas alemãs: o filó de Ernst Siems servia de matéria-prima à Fábrica de Rendas, a energia gerada na empresa de Arp abastecia as demais, e ele ainda era acionista da Fábrica Filó e sócio da YPU.
Na década de 1940, durante o governo Getúlio Vargas, o Brasil volta sua economia para a industrialização — e Nova Friburgo já havia dado passos decisivos nesse caminho. Desde a década de 1910, o município migrava da agricultura para a indústria têxtil, tornando-se um dos pioneiros do país, com forte expansão do setor e o surgimento de outros ramos, como vestuário, plástico e metalurgia. Nas décadas de 1960 e 1970, acompanhando o chamado “milagre brasileiro”, a cidade viveu grande dinamismo econômico, com indústrias como Fábrica de Filó, YPU (Passamanarias), Rendas ARP, Sinimbu Fitas, HAGA, Gemini e HAK moldando sua identidade produtiva.
É justamente no fim da década de 60 que a “Suíça Brasileira” dá a guinada para se tornar um centro efervescente da lingerie. Em 1968, o grupo alemão Triumph International, líder europeu na fabricação de roupas íntimas, passa a ter o controle acionário da Fábrica Filó. Fundada em 1886 como uma fábrica de espartilhos, a Triumph evoluíra para uma das maiores fabricantes de lingerie do mundo e agora abria as portas em Nova Friburgo.
A aquisição modernizou a empresa e expandiu a linha de produção, que passou a abranger lingerie, moda praia, roupas íntimas masculinas e roupa esportiva. Como explica Gustavo Moraes, presidente do Sindicato da Indústria do Vestuário (Sindvest), que representa não só Nova Friburgo mas também 12 municípios da região, “essa especialização trouxe maquinário e tecnologia de ponta para a época e formou mão de obra especializada”. Embora a tradição têxtil já houvesse criado raízes, é a partir dessa aquisição que a especialização na produção de moda íntima começa a se consolidar.
A década de 70 foi marcada pela desaceleração da economia brasileira, e muitas fábricas precisaram dispensar operários. A década seguinte sofreu uma crise profunda: endividamento externo, hiperinflação e recessão. O reflexo foi uma demissão em massa, e Nova Friburgo não ficou imune. Curiosamente, foi justamente essa dispensa a mola propulsora do mercado da lingerie. “A grande maioria dos demitidos era formada por mulheres, que uniram a necessidade do trabalho com a expertise adquirida, iniciando micro e pequenos empreendimentos de produção de lingerie”, explica Moraes.
É nesse momento que Silvio Montechiari, dono de uma loja de tecidos e colchas, assume papel central na história. Quando a Filó foi vendida à Triumph, parte das máquinas antigas seria descartada — e, seguindo a cultura pós-guerra, destruída. Amigo do diretor da fábrica, Montechiari negociou a compra do lote: 48 máquinas do modelo zigue-zague, úteis para lidar com elásticos, e 50 do “tatuzinho”, overloque industrial, além de 20 toneladas de saldo de tecidos elásticos próprios para lingerie. Pouco depois, a crise deixou uma massa de duas mil costureiras desempregadas. De um lado, elas procuravam trabalho; do outro, Montechiari tinha a solução.
Ele encontrou um modelo de negócio que impulsionaria a cadeia local: emprestava os equipamentos a costureiras e pequenos produtores por valores baixos e prazos longos; quando quitavam, ficavam com a máquina, e em troca compravam dele a matéria-prima. Tornou-se o primeiro fornecedor das pequenas fábricas que começavam a fabricar calcinhas e sutiãs. Percebeu que, quanto mais máquinas em circulação, mais gente produzindo e mais tecido vendido. Quando o mercado já era grande demais para depender dos saldos, foi buscar fornecedores que fabricassem diretamente os materiais da lingerie, garantindo abastecimento contínuo — tornando-se peça-chave no desenvolvimento do setor.
Muitas famílias com experiência em costura começaram a produzir lingerie. Foi o caso da família Layola: no fim dos anos 70, como muitas costureiras demitidas pela Filó/Triumph, Lucy usou o dinheiro da indenização para comprar uma máquina e passou a confeccionar lingeries em casa enquanto cuidava dos quatro filhos. Nascia a Lucitex, hoje marca consagrada que exporta para vários países e vende em magazines como Marisa, Riachuelo, C&A e Loungerie. “A lingerie gera empregos e riqueza para Nova Friburgo”, comenta Neucileia Layola, a Lea, diretora comercial da Lucitex.
As micro, pequenas e médias confecções de Nova Friburgo estavam tão bem azeitadas que conseguiram atravessar o período mais crítico da economia brasileira. O Plano Collor atingiu em cheio as grandes indústrias, que precisaram desligar ainda mais trabalhadores. O confisco das contas bloqueou o capital de giro das empresas; a população perdeu acesso ao próprio dinheiro, provocando queda brusca no consumo e uma recessão histórica. A abertura comercial agravou o cenário, com importados mais baratos pressionando indústrias acostumadas a um mercado protegido.
Nesse ambiente, foram justamente as pequenas e médias confecções, com custos operacionais menores, que não só sobreviveram como consolidaram o polo. “Os fornecedores de matéria-prima logo perceberam o potencial da cidade, com muitas confecções ativas, e passaram a instalar representantes e depósitos ali. Com domínio do processo produtivo e a cadeia reunida — fabricantes, fornecedores e compradores — formou-se um ecossistema de moda íntima”, explica Lea Layola. A Fermoplast é exemplo: com 46 anos de atuação, produz aviamentos e acessórios plásticos e metálicos (fivelas, reguladores, colchetes, arcos, botões) — milhares de unidades por dia em um parque de mais de 17 mil m². “Iniciamos com o fornecimento local para necessidades de acabamento, mas com o crescimento do polo ampliamos o portfólio e passamos a atender produtores nacionais”, conta Giselle de Araújo Vieira, diretora comercial da Fermoplast.
Se no início do polo a distribuição era predominantemente regionalizada, dependendo de compradores que vinham à cidade ou de pequenas rotas de revenda, isso mudou com a criação, há 40 anos, do SINDVEST, instituição de defesa e apoio ao empresariado da indústria do vestuário. Outra iniciativa foi a FEVEST — Feira de Moda Íntima, Praia, Fitness e Matéria-prima —, que reúne em Nova Friburgo empresas, fornecedores e compradores de todo o país, e também de fora, para apresentar lançamentos, realizar negócios e fomentar a inovação, com desfiles, palestras e workshops. Realizada no tradicional Nova Friburgo Country Clube, é reconhecida como o principal showroom da América Latina no segmento. Não é apenas a FEVEST que atrai compradores: a cidade tem um forte comércio local, concentrado na Ponte da Saudade, onde centenas de ônibus e vans chegam diariamente com milhares de pessoas em busca de bons preços.
De acordo com dados do SINDVEST, Nova Friburgo produz hoje 36% da lingerie comercializada no Brasil — 336 milhões de peças por ano que saem da cidade para o Brasil e o mundo. A produção é o motor da economia local, gerando 28 mil empregos diretos e indiretos, de costureiras e modelistas a fornecedores de aviamentos, embalagens e comércio — em uma cidade de cerca de 203 mil habitantes. “Nova Friburgo tem o menor índice de desemprego entre mulheres no Brasil. 80% da mão de obra e da liderança dessas empresas são representados por mulheres”, diz Moraes.
Embora muitas marcas atuem no atacado e no B2B, várias se tornaram referências no mercado brasileiro, como Lucitex, Jaque Lingerie, Click Chique, Monthal, Mimar, Plumas, CCM, Evidenza e Encanto de La Luna. Muitas dessas empresas, que começaram em casa, seguem fortes há mais de 40 anos, reinventando-se a cada geração — negócios que nasceram das mãos de costureiras e hoje estão com filhos e netos, que trazem inovação, presença digital e estratégias de e-commerce.
Em 2024, a Lei Federal 14.883/2024 oficializou a cidade como a Capital Nacional da Moda Íntima — uma chancela que formaliza seu papel histórico e estrutural na cadeia produtiva brasileira. A história da lingerie em Nova Friburgo é, portanto, uma trajetória de adaptação e reinvenção, na qual uma base industrial sólida se pulverizou em confecções menores, transformando-a em um polo reconhecido em todo o Brasil.
Os desafios, porém, não deixaram de surgir. Em 2011, a cidade enfrentou um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil: os deslizamentos que devastaram a região serrana. A presença crescente de produtos chineses vem mudando a cara do setor, e o avanço do e-commerce exige presença digital para não perder espaço. Em 2014, a Triumph vendeu sua operação no Brasil ao Grupo Rosset; a antiga fábrica Filó/Triumph ainda existe, mas parte de suas instalações foi desativada após a tragédia de 2011. O Brasil também deu espaço a outros polos — Juruaia (MG), Ilhota (SC), Taquaral (GO), Fortaleza (CE), Guaporé (RS), entre outros. Ainda assim, o impacto de Nova Friburgo é estrutural e transformador: mais do que um polo produtor, a cidade redefiniu o mercado brasileiro de moda íntima em produção, distribuição, empreendedorismo e consumo.
Pesquisa: Município de Nova Friburgo (PMNF.RJ); G1; “Nova Friburgo: a construção do mito da Suíça Brasileira – 1910-1960” (UFF, Depto. de História, 2003, João Raimundo de Araújo); Guia Comercial e Turístico / Friburgoascigtur; BBC News Brasil; Canal Janaína Botelho; FEVEST; Fundação D. João VI; Exame; IPHAN; Hope; JB Historiadora; Canal Lucitex Shapewear; Acervo O Globo; Costurando Sucesso; Triumph; SINDVEST.
Imagens: Triumph; Estrada de Ferro Leopoldina; acervos pessoais Janaína, Castro e Oskar Bertram; Acervo Fruit de la Passion / Cecília Bourdon; FEVEST Experience.
Agradecimentos: André Montechiari, Cecília Bourdon, Giselle de Araújo Vieira, Fundação D. João VI, Gustavo Moraes, Janaína Botelho, Lea Layola, Oskar Bertram, Ulisses de Araújo Vieira.
A visão artística de Cecília Bourdon, ao fundar a Fruit de la Passion em 1994, redefiniu o papel da lingerie no Brasil. Inspirada pela tradição francesa, ela reposicionou a sensualidade feminina como protagonista, unindo ousadia e refinamento num momento em que essa combinação ainda era rara no mercado nacional. Com mais de quatro décadas de atuação, construiu uma trajetória singular, marcada por colaborações relevantes e por uma convicção central: o design tem poder transformador, e o acabamento é sua confirmação. Sua criação nasce da curiosidade, do inconformismo e da atenção rigorosa aos detalhes. Reconhecida nacional e internacionalmente, sua marca tornou-se referência em lingerie de alto padrão, com destaque entre grandes nomes do design, como a Swarovski. Para Cecília, o futuro da lingerie passa menos pela tecnologia isolada e mais pela ampliação do acesso a materiais e processos de excelência — tema que conduz o bate-papo a seguir.
Conte-nos um pouco sobre sua trajetória antes da Fruit de la Passion.
Entrei no universo da moda por acaso. Eu nunca sonhei em ser modelo — meu interesse sempre esteve nos bastidores: criação, tecidos, processos. Mas acabei modelando, viajei bastante, comprei meu primeiro carro à vista. Era divertido e, de certa forma, dava projeção. Muito jovem, já gostava de moda, mas não havia faculdade específica no Brasil. Por isso cursei Belas Artes, tentando encontrar meu caminho. Até que vi um anúncio da Cori no Estadão: “Você entende de moda?”. Enfrentei uma fila enorme e fiz a entrevista. Pediram que eu desenvolvesse alguns croquis; fiz sem imaginar que pudesse ser estilista — parecia distante demais. Fui aprovada. Minha experiência anterior como modelo — trabalhei com Dener e Clodovil — ajudou, mas foi na Cori que comecei a construir minha carreira. Foi quando o mercado começou a me enxergar de outra forma: “A Cecília modelo agora é estilista”.
O que te levou ao universo da lingerie?
De empresa em empresa, fui consolidando meu caminho na moda até que, em 1981, recebi o convite da Valisère para trabalhar com lingerie. Apesar de sempre amar o tema, nunca havia pensado em atuar nele profissionalmente. Lá, encontrei uma realidade nova: o Brasil não tinha renda com elastano, a tecnologia era limitada, a matéria-prima era pobre e não se podia importar nada — nem tecidos, nem máquinas. Fui aos Estados Unidos e passei um período aprendendo com uma mestra que entendia tudo de modelagem, recortes e costura. Voltei com uma bagagem preciosa, mas sem os recursos para colocá-la em prática. Não aceitava esse cenário. Passei dias ao lado de um fornecedor, o rabino Aaron Friedman, dono da fábrica Rendastil, numa verdadeira maratona, ajustando cada detalhe da máquina — uma estrutura imensa, cheia de correntes e engrenagens — para incorporar o fio de elastano ao desenho da renda. Era tudo manual. Quando conseguimos produzir a primeira renda com elastano no Brasil, usando uma máquina que nem era projetada para isso, a sensação foi a de ter mandado o homem à lua. Hoje a realidade é outra: trocar um desenho que antes levava 20 dias agora leva cinco minutos. Mas naquela época, inovar exigia coragem e uma boa dose de teimosia criativa. Por volta de 1986, a Valisère foi vendida pela Rhodia ao Grupo Rosset — que tinha alma, timing e visão para esse mercado.
Você participou da concepção da coleção e da campanha “Meu Primeiro Sutiã”, um grande marco da história da lingerie no Brasil. Conte-nos os bastidores.
Quando a Valisère trocou de agência, contratou Washington Olivetto, então um jovem publicitário já conhecido por seu olhar ousado sobre comportamento e consumo. A marca completava 60 anos: sólida e tradicional, mas justamente por isso enfrentava um desafio — não conversava com as novas gerações; pertencia ao imaginário das mães e das avós. Pensei: “como criar um vínculo emocional com uma geração que está entrando na adolescência, se a marca não fala a língua dela?”. Foi numa das pesquisas de grupo que a ideia surgiu. Ouvindo o público-alvo, percebi que aquele momento não era apenas sobre uma peça de roupa — era um rito de passagem. Desenvolvi uma primeira coleção bem delicada — rosa, bolinhas, rococós, lacinhos — e a levei a teste. O choque foi imediato: o público detestou. Não queria frufru nem inocência artificial; tinha outra cabeça, outro repertório. Voltei para a agência e disse ao Washington Olivetto: “Isso aqui é uma campanha pronta”. Assim nasceu o comercial “Meu Primeiro Sutiã”, que capturava com sensibilidade um instante de transição. O filme ganhou o primeiro Leão de Ouro da publicidade brasileira em Cannes.
▶ Assista ao comercial “Valisère — Meu Primeiro Sutiã”.
Como foi a ponte da Valisère até a criação da sua própria marca? Comente a participação de sua irmã, Marie Alba, cofundadora da Fruit de la Passion.
Em 1992, mudei-me para Paris, acompanhando meu então marido, um executivo francês. Viver ali transformou tudo — Paris é um laboratório permanente de estilo, técnica e inspiração; foi como uma pós-graduação diária, uma imersão absoluta no universo da lingerie. Depois de deixar a Valisère, continuei como consultora: desenvolvia coleções, criava cadernos de tendência e assessorava empresas como a Dupont — então detentora do fio Lycra (elastano) —, Rosset, Demillus e, mais tarde, participei da criação da Liz desde o primeiro tijolo. Em Paris, um pensamento me perseguia: “como é possível que a mulher brasileira — reconhecida mundialmente pela sensualidade e beleza — não tenha acesso a lingeries tão elaboradas quanto as francesas?”. Procurei clientes para propor uma nova marca, mas todos acharam arriscado: era um produto trabalhoso, artesanal, de baixa escala. Decidi fazer eu mesma, e ao consultar minha irmã Marie, ela disse “sim”! Marie tinha formação complementar à minha — artes plásticas, marketing e Administração na FGV — e um talento natural para gestão. Éramos opostos magnéticos: eu criava, ela estruturava; eu voava, ela aterrissava. Era o equilíbrio perfeito. Nossa história ia além dos papéis empresariais: Marie nasceu em casa e eu fui a primeira a pegá-la no colo, aos meus doze anos. Perdê-la em 2019 foi um golpe que nem sei descrever. Em 1994, alugamos um galpão com seis máquinas e três funcionários, e nasceu a Fruit de la Passion. Fizemos o que ninguém fazia: lingerie brasileira com alma francesa. Em poucos anos, vendíamos para mais de 600 cidades no Brasil, abrimos lojas próprias e consolidamos um estilo reconhecível.
Como era o mercado de lingerie no Brasil naquela época?
Naquela época, o mercado brasileiro de lingerie era muito limitado. Não existia uma lingerie realmente sofisticada. O que havia de sensual era, muitas vezes, feito com materiais de baixa qualidade, com um apelo mais vulgar do que elegante. A Fruit de la Passion nasceu para ocupar esse espaço: a lingerie sensual, chique, com materiais nobres, acabamento impecável e um olhar artístico. Eu queria criar peças desejáveis, femininas e sofisticadas, sem cair na erotização. Desde o início, estabeleci um princípio que mantenho até hoje: sensualidade não é sinônimo de exposição.
Por que o nome “Fruit de la Passion”?
Em uma dessas viagens a Paris, eu e minha irmã Marie estávamos em um restaurante. O maître apareceu impecável, daquele jeito quase teatral que só os franceses conseguem ser, e começou a apresentar os cocktails do menu. Num dado momento, ele pronunciou um dos drinks “avec fruit de la passion” — maracujá em francês. Mas a forma como ele disse aquilo… cantado, estiloso… me arrebatou na hora. “Que nome incrível para uma marca de lingerie!” Foi um estalo. Nada planejado — simplesmente uma epifania causada por um garçom francês, um piano bar e um drink com maracujá. (risos)
Qual é a sua primeira memória afetiva com uma peça de lingerie?
Minha primeira memória afetiva com lingerie vem da minha avó. Ela era italiana, muito chique. Usava aqueles vestidos com inúmeros botõezinhos nas costas, era magrinha e tinha uma elegância natural. Lembro que ela não gostava que mexessem em suas coisas. Um dia, ela saiu de casa e eu aproveitei para abrir uma gaveta de uma cômoda — eu devia ter uns nove anos. Ali encontrei uma peça de lingerie. Nunca esqueci: era clarinha, em tom bege, com uma renda rebordada maravilhosa. Parecia uma roupa de fada. Aquilo me fascinou.
Além do trabalho, o que te inspira? Como seus hobbies e paixões influenciam sua criatividade na Fruit de la Passion?
Quando você trabalha com criação, tudo inspira. Você nunca desliga. Fiz um curso com a estilista e diretora do Studio Berçot, Marie Rucki, em Paris, e ela não ensinava a desenhar; ela ensinava a abrir a sensibilidade, a aprender a enxergar. Sempre fui muito curiosa — curiosa até demais — e essa curiosidade faz com que eu encontre inspiração em qualquer lugar.
O que o futuro reserva para a lingerie em termos de tecnologia? O que te empolga nesse campo?
Estamos assistindo a uma evolução impressionante nas fibras, especialmente nas microfibras. A renda Leavers, por exemplo, é uma renda caríssima, de altíssima qualidade, com produção muito limitada. Gostaria de ver no futuro a popularização desses materiais. Algumas fibras e rendas ainda são muito elitizadas, inacessíveis para a maioria dos consumidores.